segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A vida organizada










                                          II
                                A vida organizada
                                                    AS CONSTRUÇÕES CELULARES
Sob a orientação misericordiosa e sábia do Cristo, laboravam na
Terra numerosas assembléias de operários espirituais.
Como a engenharia moderna, que constrói um edifício prevendo os
menores requisitos de sua finalidade, os artistas da espiritualidade
edificavam o mundo das células iniciando, nos dias primevos, a
construção das formas organizadas e inteligentes dos séculos
porvindouros.
O ideal da beleza foi a sua preocupação dos primeiros momentos, no
que se referia às edificações celulares das origens.
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EMMANUEL
É por isso que, em todos os tempos, a beleza, junto à ordem,
constituiu um dos traços indeléveis de toda a criação.
As formas de todos os remos da natureza terrestre foram estudadas
e previstas. Os fluidos da vida foram manipulados de modo a se adaptarem
às condições físicas do planeta, encenando-se as construções celulares
segundo as possibilidades do ambiente terrestre, tudo obedecendo a um
plano preestabelecido pela misericordiosa sabedoria do Cristo,
consideradas as leis do princípio e do desenvolvimento geral.
OS PRIMEIROS HABITANTES DA TERRA
Dizíamos que uma camada de matéria gelatinosa envolvera o orbe
terreno em seus mais íntimos contornos. Essa matéria, amorfa e viscosa,
era o celeiro sagrado das sementes da vida. O protoplasma foi o embrião
de todas as organizações do globo terrestre, e, se essa matéria, sem forma
definida, cobria a crosta solidificada do planeta, em breve a condensação
da massa dava origem ao surgimento do núcleo, iniciando-se as primeiras
manifestações dos seres vivos.
Os primeiros habitantes da Terra, no plano material, são as células
albuminóides, as amebas e todas as organizações unicelulares, isoladas e
livres, que se multiplicam prodigiosamente na temperatura tépida dos
oceanos.
Com o escoar incessante do tempo, esses seres primordiais se
movem ao longo das águas, onde encontram o oxigênio necessário ao
entre27
A CAMINHO DA LUZ
tenimento da vida, elemento que a terra firme não possuía ainda em
proporções de manter a existência animal, antes das grandes vegetações;
esses seres rudimentares somente revelam um sentido - o do tato, que deu
origem a todos os outros, em função de aperfeiçoamento dos organismos
superiores.
A ELABORAÇÃO PACIENTE DAS FORMAS
Decorrido muito tempo, eis que as amebas primitivas se associam
para a vida celular em comum, formando-se as colônias de infusórios, de
polipeiros, em obediência aos planos da construção definitiva do porvir,
emanados do mundo espiritual onde todo o progresso da Terra tem a sua
gênese.
Os reinos vegetal e animal parecem confundidos nas profundidades
oceânicas. Não existem formas definidas nem expressão individual nessas
sociedades de infusórios; mas, desses conjuntos singulares, formam-se
ensaios de vida que já apresentam caracteres e rudimentos dos
organismos superiores.
Milhares de anos foram precisos aos operários de Jesus, nos
serviços da elaboração paciente das formas.
A princípio, coordenam os elementos da nutrição e da conservação
da existência. O coração e os brônquios são conquistados e, após eles,
formam-se os pródromos celulares do sistema nervoso e dos órgãos da
procriação, que se aperfeiçoam, definindo-se nos seres.
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EMMANUEL
AS FORMAS INTERMEDIÁRIAS DA NATUREZA
A atmosfera está ainda saturada de umidade e vapores, e a terra
sólida está coberta de lodo e pântanos inimagináveis.
Todavia, as derradeiras convulsões interiores do orbe localizam os
calores centrais do planeta, restringindo a zona das influências telúricas
necessárias à manutenção da vida animal.
Esses fenômenos geológicos estabelecem os contornos geográficos
do globo, delineando os continentes e fixando a posição dos oceanos,
surgindo, desse modo, as grandes extensões de terra firme, aptas a
receber as sementes prolíficas da vida.
Os primeiros crustáceos terrestres são um prolongamento dos
crustáceos marinhos. Seguindo-lhes as pegadas, aparecem os batráquios,
que trocam as águas pelas regiões lodosas e firmes.
Nessa fase evolutiva do planeta, todo o globo se veste de vegetação
luxuriante, prodigiosa, de cujas florestas opulentas e desmesuradas as
minas carboníferas dos tempos modernos são os petrificados vestígios.
OS ENSAIOS ASSOMBROSOS
Nessa altura, os artistas da criação inauguram novos períodos
evolutivos, no plano das formas.
A Natureza torna-se uma grande oficina de ensaios monstruosos.
Após os répteis, surgem os animais horrendos das eras primitivas.
29
A CAMINHO DA LUZ
Os trabalhadores do Cristo, como os alquimistas que estudam a
combinação das substâncias, na retorta de acuradas observações,
analisavam, igualmente, a combinação prodigiosa dos complexos
celulares, cuja formação eles próprios haviam delineado, executando, com
as suas experiências, uma justa aferição de valores, prevendo todas as
possibilidades e necessidades do porvir.
Todas as arestas foram eliminadas. Aplainaram-se dificuldades e
realizaram-se novas conquistas. A máquina celular foi aperfeiçoada, no
limite do possível, em face das leis físicas do globo. Os tipos adequados à
Terra foram consumados em todos os reinos da Natureza, eliminando-se
os frutos teratológicos e estranhos, do laboratório de suas perseverantes
experiências. A prova da intervenção das forças espirituais, nesse vasto
campo de operações, é que, enquanto o escorpião, gêmeo dos crustáceos
marinhos, conserva até hoje, de modo geral, a forma primitiva, os animais
monstruosos das épocas remotas, que lhe foram posteriores,
desapareceram para sempre da fauna terrestre, guardando os museus do
mundo as interessantes reminiscências de suas formas atormentadas.
OS ANTEPASSADOS DO HOMEM
O reino animal experimenta as mais estranhas transições no período
terciário, sob as influências do meio e em face dos imperativos da lei de
seleção.
30
EMMANUEL
Mas, o nosso raciocínio ansioso procura os legítimos antepassados
das criaturas humanas, nessa imensa vastidão do proscênio da evolução
anímica.
Onde está Adão com a sua queda do paraíso? Debalde nossos olhos
procuram, aflitos, essas figuras legendárias, com o propósito de localizálas
no Espaço e no Tempo. Compreendemos, afinal, que Adão e Eva
constituem uma lembrança dos Espíritos degredados ria paisagem
obscura da Terra, como Caim e Abel são dois símbolos para a
personalidade das criaturas.
Examinada, porém, a questão nos seus prismas reais, vamos
encontrar os primeiros antepassados do homem sofrendo os processos de
aperfeiçoamento da Natureza. No período terciário a que nos reportamos,
sob a orientação das esferas espirituais notavam-se algumas raças de
antropóides, no Plioceno inferior. Esses antropóides, antepassados do
homem terrestre, e os ascendentes dos símios que ainda existem no
mundo, tiveram a sua evolução em pontos convergentes, e daí os
parentescos sorológicos entre o organismo do homem moderno e o do
chimpanzé da atualidade.
Reportando-nos, todavia, aos eminentes naturalistas dos últimos
tempos, que examinaram meticulosamente os transcendentes assuntos do
evolucionismo, somos compelidos a esclarecer que não houve
propriamente uma "descida da árvore", no início da evolução humana.
As forças espirituais que dirigem os fenômenos terrestres, sob a
orientação do Cristo, estabeleceram, na época da grande maleabilidade
dos elementos materiais, uma linhagem
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A CAMINHO DA LUZ
definitiva para todas as espécies, dentro das quais o princípio espiritual
encontraria o processo de seu acrisolamento, em marcha para a
racionalidade.
Os peixes, os répteis, os mamíferos, tiveram suas linhagens fixas de
desenvolvimento e o homem não escaparia a essa regra geral.
A GRANDE TRANSIÇÃO
Os antropóides das cavernas espalharam-se, então, aos grupos, pela
superfície do globo, no curso vagaroso dos séculos, sofrendo as
influências do meio e formando os pródromos das raças futuras em seus
tipos diversificados; a realidade, porém, é que as entidades espirituais
auxiliaram o homem do sílex, imprimindo-lhe novas expressões biológicas.
Extraordinárias experiências foram realizadas pelos mensageiros do
invisível. As pesquisas recentes da Ciência sobre o tipo de Neanderthal,
reconhecendo nele uma espécie de homem bestializado, e outras
descobertas interessantes da Paleontologia, quanto ao homem fóssil, são
um atestado dos experimentos biológicos a que procederam os prepostos
de Jesus, até fixarem no "primata" os característicos aproximados do
homem futuro.
Os séculos correram o seu velário de experiências penosas sobre a
fronte dessas criaturas de braços alongados e de pelos densos, até que
um dia as hostes do invisível operaram uma definitiva transição no corpo
perispiritual preexistente, dos homens primitivos, nas regiões
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EMMANUEL
siderais e em certos intervalos de suas reencarnações.
Surgem os primeiros selvagens de compleição melhorada, tendendo
à elegância dos tempos do porvir.
Uma transformação visceral verificara-se na estrutura dos
antepassados das raças humanas.
Como poderia operar-se semelhante transição? Perguntará o vosso
critério científico.
Muito naturalmente.
Também as crianças têm os defeitos da infância corrigidos pelos
pais, que as preparam em face da vida, sem que, na maioridade, elas se
lembrem disso.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Perturbação da Morte

                                                  XIII
                                Perturbação da Morte
Toda transformação ocasiona uma perturbação; uma
simples mudança, seja de uma cidade para outra, seja
unicamente de residência, não deixa de causar uma
desorganização psíquica que só cessa com a adaptação ao
novo meio.
A personalidade não mudou, nada perdeu, continua a ser
a mesma, mas sofreu a sua desagregação do meio em que se
achava e lutou para se acostumar e poder agir no meio para
onde se transferiu.
Naturalmente, nesses trâmites por que passou a pessoa
teve contrariedades e sofreu.
Pensemos agora na transição provocada pela morte e
façamos uma idéia em relação incomparavelmente superior
às insignificantes mudanças - seja de residência, seja de
cidade ou de país. Acrescente-se ainda a desagregação do
corpo físico e poder-se-á ter uma idéia do que seja a
perturbação da morte: 1.° - mudança de meio; 2.° - mudança
de condições de vida; 3.° - mudança de meio de ação.
Entretanto, apesar de todas essas mudanças, a
individualidade permanece, como permaneceu a mesma
individualidade durante todas as mudanças que fez - de casa
em casa; de cidade em cidade; de um para outro país. O
homem é imperecível nas trocas que faz de residência, nas
suas transferências de um país para outro; o Espírito, que é a
individualidade permanente, é imortal na sua transformação
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e passamento para o Outro Mundo, tendo unicamente o
trabalho de se adaptar a uma vida nova, muito diferente
daquela vivida na Terra e ainda com o acréscimo de não
mais possuir um corpo denso, material, que "não podia"
dispensar para agir neste mundo, e lhe servia de instrumento
para desempenhar a tarefa que veio realizar, ou exercício do
cargo que veio desempenhar.
Ora, todos sabem, perfeitamente, como é difícil
abandonar hábitos enraizados, e a morte vem suprimir, de
uma hora para outra, os hábitos costumeiros, dando lugar à
aquisição de outros costumes, visto serem diferentes as
condições do meio para o qual somos trasladados.
Está claro que tudo é relativo, e o progresso, em todas as
coisas, age gradativamente, sem saltos bruscos, de modo
que, na outra esfera da vida, teremos um complemento de
vida, como meio de transição para um estado melhor, assim
como certamente haverá uma esfera de seguimento à fase
física do indivíduo, para que ele se adapte à Vida Superior
sem uma transição brusca.
E isto que nos dizem os Espíritos, cônscios do seu
estado, e que já passaram pelos trâmites que se seguem à
morte e chegaram à Imortalidade.
Por isso, o Mundo Espiritual é provido de meios que
fornecem à vida de além-túmulo as condições indispensáveis
para a transição. Por exemplo, dizem as entidades do Espaço
que lá existem hospitais onde são tratados aqueles que
passam por longa enfermidade, e os quais, por suas
condições de atraso, não percebem o Mundo dos Espíritos
em sua realidade. Aí são curados, e, depois, instruídos sobre
a nova situação até que se adaptem ao meio em que se
acham.
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Os Espíritos dos que morrem quando crianças, são
acolhidos carinhosamente por missionários, que se dedicam
a essa tarefa, e são igualmente instruídos até que se lhes
desponte a consciência integral? desapareça deles o traço
infantil gravado na "consciência pessoal".
Assim também sucede com a alimentação. Aos entes
muito materializados, que chegam ao Mundo Espiritual sem
compreenderem a transformação porque passaram, e têm
ainda sensação de fome e sede, lhes são ministrados
alimentos em instalações especiais, até que, adaptados ao
meio em que iniciaram a nova vida, compreendam que não
têm mais necessidades desses alimentos, que julgavam
precisos para sua manutenção. Naturalmente, os alimentos
assemelham-se muito aos que lhes eram usuais na Terra, mas
são feitos de matéria peculiar ao Mundo dos Espíritos e de
acordo com o corpo fluídico, ou seja, o organismo
perispiritual de cada um.
Não podíamos deixar de narrar todas essas
particularidades do Mundo Espiritual, que não deixam de ser
lógica, de acordo com a lei da evolução, que não admite
bruscas transições e que proporciona, sempre, períodos
intermediários para suavizar as mudanças que ocasionam
grande abalo, e maior perturbação ainda ocasionariam, se
fossem excluídos os meios precisos para essas transições.
Isto tudo demonstra que o Mundo Espiritual não é uma
concepção abstrata, uma miragem, um vácuo inconcebível,
sem sanção da inteligência, mas, sim, um meio concreto,
onde se encontram as condições indispensáveis para as
adaptações e o progresso do Espírito.
Já havíamos recebido essas revelações há muitos anos;
contudo, tínhamo-las conservado como lição de caráter
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puramente familiar, e sujeita, portanto, à observação: é
sabido que as revelações da Verdade têm caráter coletivo; se,
de fato, a nossa procedesse dessa fonte, outros também
recebê-la-iam em todo o mundo. Se isso acontecesse,
julgaríamos essas revelações transcendentais realmente
dignas de atenção e até de experimentações novas, com
outros médiuns, para sua melhor confirmação.
Com efeito, em diversas obras inglesas, norte-americanas
é francesas, vemos, hoje, a reprodução detalhada dessas
mensagens! O Plano Espiritual desenterra o oculto e
concorre para que conheçamos o futuro que nos espera,
assim como nos dá a conhecer, desde já, em que consiste a
outra vida e quais os meios facultados, nessas regiões, aos
entes que nos são caros, para a aquisição de uma felicidade
duradoura e de um progresso crescente para a Luz e a
Verdade.
E, com estes dados, mal apanhados pela imperfeição dos
nossos sentidos, dados fornecidos pelos Espíritos que
habitam o Além e passaram, mais ou menos, por essas
peripécias, podemos, hoje, fazer uma idéia mais aproximada
das condições desse Outro Mundo e em que consiste a
perturbação da morte e os meios aplicados para suavizá-la.
Com a leitura das obras espíritas, especialmente O Céu e
o Inferno, de Allan Kardec, e A Crise da Morte, de Ernesto
Bozzano, muito se aprende sobre a perturbação que ocasiona
a passagem de uma a outra vida.
www.autoresespiritasclassicos.com
  Caibar Schutel
1932
Livro: A vida no outro mundo
Willian Turner          

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Homem do mundo como ser da evolução


A Teoria da Evolução das Espécies, de Darwin, foi rejeitada pela Igreja e pela maioria das escolas espiritualistas como absurda e humilhante para a Humanidade. Evidentemente chocante era, para a criatura humana, que pudéssemos descender das formas hominóides do reino animal. Feriu a suscetibilidade do homem, milenarmente cultivada no estudo das culturas religiosas, que nos apresentavam como criação à parte no Universo, a única dotada de capacidade de abstração e capacidade de discernimento suficiente, para reconhecer a sua superioridade ante todos os demais seres. A idéia bíblica e de outras escrituras sagradas, segundo a qual fomos criados por Deus à sua imagem e semelhança, conferia-nos uma posição privilegiada, muito grata do nosso orgulho, e não nos permitia aceitar a proposição atrevida e insolente de Darwin, que profanava a nossa natureza divina. Nem mesmo aceitamos a teoria conciliatória de Roussell Wallace, êmulo de Darwin, que admitia o elemento espiritual no processo evolucionista.
O próprio mestre francês da Universidade de França, Professor Denizard Rivail, de tradicional família lionesa, ao publicar O Livro dos Espíritos, em que compendiava a Doutrina Espírita, sob o pseudônimo de Allan Kardec – ocultando os nomes das médiuns que atuaram nas suas pesquisas –, evitou aprofundar a questão e definir claramente a sua posição no assunto, preservando as médiuns, as meninas Boudin, e evitando empecilhos maiores para a divulgação da Nova Doutrina. Só no quinto e último volume da Codificação do Espiritismo, seu livro A Gênese - os milagres e as predições segundo o Espiritismo, tornou clara e precisa a sua posição evolucionista quanto ao problema da evolução das espécies.
Na verdade, ele já havia antecipado a sua posição em várias passagens dos quatro livros anteriores e livros acessórios. Mas a declaração chocante de que o ser animal não se humanizava sem haver passado pela fieira devidamente fatal dos seres inferiores, constante de uma comunicação de Galileu pela mediunidade do astrônomo Camille Flammarion, só então foi incluída na Codificação. Isso revela, ao mesmo tempo, o cuidado cartesiano de Kardec e as dificuldades com que ele teve de lutar para sustentar a batalha espírita na cultura européia do século XIX. Como Descartes, seu predecessor na visão dos novos tempos, Kardec inscreveu, não no seu brasão, que não tinha, mas na sua mente, a palavra Cristo. Apesar disso, o Bispo de Barcelona ateou uma fogueira em praça pública para incinerar os seus livros, pois o homem não estava ao seu alcance e na França a Inquisição já não mais existia.
O religiosismo popular, na França como em toda parte, foi abalado pela resistência e a insistência de Kardec, absorvendo os seus princípios básicos. Foi então que ele se entregou à elaboração secreta de O Evangelho Segundo o Espiritismo, proporcionando ao povo os esclarecimentos espíritas. Nesse livro ele amparava e estimulava a religião do povo, mas sustentando essa religiosidade em termos racionais. Apoiava-se então no princípio doutrinário da lei de adoração – lei universal que só ele descobriu e explicou –, reativando a religião nos corações abalados. Ainda hoje há espíritas, não raro ocupando posições de direção em instituições doutrinárias, que não compreendem a necessidade e o valor desse livro orientador da intuição religiosa popular. Não compreendem que o aspecto religioso do Espiritismo constitui a base inabalável do movimento espírita no mundo. Outros chegam a criticar Kardec por essa capitulação e outros, mais ingênuos, chegam ao cúmulo de alegar que essa tarefa cabia a Roustaing, o infeliz fascinado de Bordeaux, que lançou a obra de evidente mistificação Os Quatro Evangelhos, em que os evangelistas se contradizem a si mesmos e tentam forçar um retrocesso católico do religiosismo popular. A tese espúria, levantada pela Federação Espírita Brasileira, de que Roustaing estava incumbido do problema da fé é simplesmente alucinante. O pobre fascinado não foi discípulo de Kardec, jamais militou ao seu lado e teve sua obra rejeitada pelo mestre. A fé de Roustaing não podia entrosar-se na obra de Kardec, pois era a fé católica medieval, enquanto a fé espírita, definida por Kardec como fé racional, não precisava de nenhum assessor místico e fanático para se implantar na consciência dos novos tempos.
O Espiritismo rejeita toda mitologia de ontem, de hoje e de amanhã. Sua função é de transformar os erros em verdades, como se lê em Kardec, e não em remendar as mitologias antigas com novos e ridículos mitos, como Roustaing tentou fazer em sua obra mistificadora, em que a obra kardeciana é deformada por um trabalho de plágio vergonhoso e de remendos adulteradores que denunciam a debilidade mental do autor. Por sinal que este mesmo declara, na introdução de sua obra, que a obteve mediunicamente (por uma médium, que foi a primeira a rejeitar a mistificação) após haver saído de um internamento em hospital de doentes mentais.
Feito esse preâmbulo necessário, convém lembrar que a religiosidade popular nada tem a ver com as religiões dos teólogos e, portanto, das igrejas. A religião pura e natural do povo nasce da lei de adoração e não das sacristias. É um impulso instintivo do homem, que busca Deus na natureza. Expusemos esse processo, como base em pesquisas antropológicas, em nosso livro O Espírito e o Tempo. O Espiritismo reconhece a legitimidade desse processo, a naturalidade desse impulso. A lei de adoração é hoje plenamente reconhecida pelas Filosofias da Existência, com a designação de impulso de transcendência. Esse impulso é disciplinado pela razão, na medida do desenvolvimento cultural da humanidade.
O conceito de Deus se aprimora e refina na mente humana, acompanhando o desenvolvimento da Civilização. O refinamento intelectual gera ilações atrevidas que o homem vaidoso e entusiasmado com o seu progresso transforma em afirmações definitivas, desencadeando o processo das dogmáticas asfixiantes e intocáveis, porque sagradas. As revelações sutis de entidades espirituais, que o homem capta como percepções extra-sensoriais, acabam cercadas de aparatos materiais imaginários, que reforçam os dogmatismos exclusivistas. Os fatos da selva, pragmáticos e funcionais, provindos dos ritos necessários da vida animal, complicam-se com os adendos da imaginação e a vontade de potência, o anseio de poder dos homens e das organizações religiosas naturalmente absorventes. Instaura-se o poder como conquista humana e desencadeiam-se ações repressivas dos possíveis cismas e gerados por opiniões contrárias. Acendem-se as fogueiras inquisitórias e borbulham em sangue os massacres das dissidências audaciosas e as Noites de São Bartolomeu.
Todo esse processo, contraditório em si mesmo, revela a condição espiritual do homem no mundo. Desde o instante em que o ser espiritual se lança na realidade material, a sua estrutura ôntica, a estrutura espiritual do ser, inverteu todo o seu sistema direcional e seus vetores psíquicos se voltaram para os alvos terrenos. Não se trata de uma queda, mas de uma experiência necessária, em que dominam as forças materiais e prevalecem os instintos animais; o ser está submetido ao desafio do não-ser. Esta expressão filosoficamente tão discutida não se refere a uma possível entidade mitológica (como a do Anti-Cristo, por exemplo), mas a uma realidade inversa à que corresponde a natureza do ser.
Ninguém explicou melhor essa inversão do que Frederic Myers em sua teoria das duas mentes, a subliminar e a supraliminar. O ser como ser fica soterrado em si mesmo, guardando suas conquistas da filogênese evolutiva no inconsciente, e o homem se define na mente consciente, nivelado no plano dos interesses terrenos imediatistas. A Religião do Homem, para usarmos essa expressão de Tagore, define-se então como um sistema práxico, ou seja, integrado na práxis de cada conquista do mundo. Historicamente essa visão é decepcionante. Tem-se a impressão de que a evolução humana faliu, voltando ao seu marco zero.
Os poderes religiosos nada têm de divino, são exclusivamente humanos. A recente tragédia do Iran, deflagrada friamente pelo Aiatolá Comeine, num retrocesso brusco e violento à época das Civilizações Teológicas, com toda a brutalidade dos processos inquisitoriais, mostra-nos o poder de reversão dos vetores ou cargas de força da gravidade terrena. Comeine é o Grão Sacerdote da Era Teocrática, de Israel, da Mesopotâmia e do Egito ou da antiga Catai, a China Arcaica, das religiões do homem, ansiosas pela dominação material do mundo. Apoiado no Corão, esse Evangelho às avessas, ele ressurge na abertura dos despotismos desencadeados pelas conflagrações mundiais do século, numa tentativa perigosa de repetir as audácias islâmicas do passado.
A atitude agressiva da China invadindo o Vietnã de maneira brutal, depois de prudente reatamento de relações com os Estados Unidos, mostra que os telúricos do mandarinato não estavam extintos, mas apenas ressonando em seus esconderijos subterrâneos. Por outro lado, a reação russa de apoio ao Vietnã corresponde às exigências do determinismo histórico do restabelecimento do Império de Tamerlão. É evidente que esses fatos atuais se revestem de aparências como se fossem determinados apenas por circunstâncias do nosso tempo. Mas são as molas secretas dessa situação, como no caso dos totalitarismos europeus que romperam o falso equilíbrio do século com as explosões da barbárie germânica do passado.
Temos, assim, a demonstração flagrante, no panorama atual do mundo, da sobrevivência do passado histórico na conjuntura contemporânea. O princípio espírita do encadeamento de todos os fatos e todas as coisas no sistema universal nos permite ver, por trás da roupagem moderna dos conflitos atuais, a continuidade inevitável da lei de ação e reação. A lei grega da palingenesia determinava a repetição contínua dos ciclos históricos em todas as suas minúcias. Nos períodos de destruição as civilizações desapareciam, mas nos períodos de reconstrução tudo se repetia, minuciosamente: renovavam-se as figuras do passado em suas posições antigas, as cidades renasciam das cinzas com todos os seus atributos, as situações arcaicas se restabeleciam, as aldeias ressurgiam em seus antigos lugares e até mesmo as estradas e os trilhos dos campos eram restabelecidos. É evidente o exagero absurdo dessa concepção, mas não menos evidente a intuição das repetições históricas, necessárias ao encadeamento dos tempos no processo evolutivo. A repetição não é nem poderia ser escrita, pois com isso se anularia a sua finalidade evolutiva.
Levada por Pitágoras, do Egito à Grécia, a lei da palingenesia adaptou-se a várias concepções das diversas escolas filosóficas. Hoje o astrônomo J. Opiki sustenta a teoria do Universo Oscilante, baseada nas observações dos movimentos das galáxias. De milhões em milhões de anos o Universo se expande no infinito e depois retorna sobre si mesmo, num ritmo de sístoles e diástoles. Nesse abrir e fechar o universo se destrói e se recompõe, marcando o ritmo assombroso das transformações evolutivas. A repetição histórica é apenas um detalhe desse eterno retorno no qual se abre, humílima e fragmentária, a teoria espírita da reencarnação, hoje submetida a pesquisas científicas nos grandes centros universitários do mundo, desde os trabalhos do prof. Wladmir Raikov, na Universidade de Moscou, aos de Ian Stevenson, na Universidade da Califórnia e aos de Hamendras Nat Barnejee, na Universidade de Rajastã, na Índia. O problema pitagórico, egípcio e grego retorna às cogitações filosóficas e às pesquisas científicas na nossa civilização.
O processo evolutivo adquire assim dimensões cósmicas, segundo a proposição espírita: Tudo se encadeia no universo. Vemos assim que a evolução espiritual do homem não é um caso específico de transformação individual, de santificação canônica ou de reforma íntima de modelagem católica. O homem evolui espiritualmente na medida em que, amalgamado na experiência cósmica, é levado por essa experiência incontrolável por curas e pastores. Por isso Jesus não ensinou nem aprovou as formalidades do templo de Jerusalém, nem submeteu os seus discípulos às exigências pretensiosas do rabinato judeu. Sua lição a respeito se resume na advertência: O que se apega à sua vida, perdê-la-á, mas o que a perder por amor de mim, esse a encontrará. Quem vive debruçado sobre si mesmo, cuidando apenas do seu umbigo, não pode perceber e muito menos compreender a grandeza espiritual que é a sua imperecível herança de filho de Deus.
Essa a razão porque o Espiritismo rejeita a alienação do homem no culto externo, em que os mitos supostamente sagrados servem apenas aos espíritos em fase primária de evolução. A lei de adoração não nos obriga a adorar mitos de qualquer espécie. É uma lei natural que leva o homem a adorar a Deus em espírito e verdade. O impulso de transcendência que marca a natureza humana não comporta aparatos de cultos, nem sacramentos inventados pelas igrejas para o comércio da simonia. Os vendilhões do templo, condenados pelo Messias, encontraram mil maneiras de continuar na venda de suas ovelhas inocentes. Substituíram os animais sacrificiais por palavras, gestos e cerimônias, evitando complicações fiscais. Transformaram-se em mascates de palavrórios eletrônicos, vendendo palavras vazias como faziam em seu tempo os sofistas gregos que Sócrates desmascarou. Isso mostra que o espiritual caiu num ciclo vicioso, exibindo o refluir do passado na geena de fogo do Vale do Kidron, do lixo acumulado na Porta do Monturo. Estamos queimando os resíduos que impedem o fluxo natural da evolução. Nossa atualidade trágica brota ameaçadora da fermentação do lixo histórico às portas de Jerusalém. Não é Deus quem nos castiga, mas nós mesmos que nos asfixiamos em nossa incapacidade de compreender, amar e perdoar. Apegados aos interesses terrenos, não conseguimos ainda abrir os olhos, doentes de ganância e violência, para a realidade de nossos próprios impulsos de transcendência.

Fonte:www.autoresespiritasclassicos.com

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Reencarnação


Léon Denis

Síntese Doutrinária
Prática do Espiritismo

Traduzido do Francês
Synthèse doctrinale et pratique du Spiritualisme
1921


Rembrandt
O Moinho


█



Conteúdo resumido

Nesta obra Léon Denis enfoca, em forma dialogada (perguntas e respostas), temas essenciais referentes ao Espiritismo.
Logo adiante, na Introdução, o próprio autor esclarece mais detalhadamente o conteúdo da obra e o público a que se destina.

                                  III
                  O Lugar da Reencarnação
33.    Onde o Espírito reencarna?
r.  Por toda parte no universo. Todos os mundos são destinados a receber a vida sob suas formas variadas e em todos os graus.
34.    Por que reencarnamos na Terra?
r.  Porque a Terra, sendo um mundo regido pela lei do trabalho e do sofrimento, é um lugar propício ao adiantamento e ao progresso do Espírito em estado inferior.
35.    Que é a Terra?
r.  É um dos inúmeros mundos que povoam o espaço; um dos menores pelo volume, porque só tem 10.000 léguas de circunferência, porém grande quanto aos destinos que nela se cumprem.[i]
36.    A Terra está imóvel no espaço?
r.  Acreditou-se nisso por muito tempo, mas o sábio e infortunado Galileu provou que ela gira em torno do sol. O sol é 1.400.000 vezes maior que a Terra e é dela separado por 37 milhões de léguas.
37.    Como a Terra completa sua revolução em torno do sol?
r.  Em um período de 365 dias e 6 horas (o que constitui um ano), com uma velocidade de 7 léguas por segundo, ou cerca de 660.000 léguas por dia. Ao mesmo tempo em que se move em redor do sol, a Terra gira sobre si mesma em 24 horas (o que constitui um dia), com uma velocidade de 6 léguas por minuto.
38.    Como a Terra e os outros globos se mantêm assim no espaço, isto é, no vácuo, sem saírem da órbita que percorrem?
r.  Por uma força irresistível, que se chama força de atração. O Sol atrai a Terra e os outros planetas: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, etc., como o ímã atrai o ferro. Todos os globos se atraem uns aos outros e se mantêm no espaço, em razão de seu volume e da distância que os separa. Os maiores atraem os menores. Cada estrela é um sol; os sóis, por sua vez, são atraídos por outros mais poderosos e arrastados, assim como seus planetas e seus satélites, na imensidão sem limites. É o movimento perpétuo na eterna harmonia que constitui o equilíbrio universal.
39.    Esses milhões de globos, que gravitam assim na imensidão, são habitados?
r.  Uns o são, outros o foram no passado ou sê-lo-ão um dia: é o que se chama a vida universal.
40.    Esses mundos são habitados por seres superiores, iguais ou inferiores aos homens?
r.  A ciência atual não pode ainda responder a esta pergunta; mas, segundo as revelações dos Espíritos, sabemos que os planetas vizinhos da Terra são habitados: Marte, por exemplo, por seres um pouco superiores a nós; Vênus, ao contrário, por seres inferiores. O Sol é a morada de Espíritos sublimes, que atingiram os mais altos graus da evolução e, do alto desse astro, como de um trono de luz, fazem irradiar seu pensamento e sua ação sobre os outros mundos, por meio das transmissões fluídicas e magnéticas.
41.    Entretanto, certos sábios pretendem que a Terra é o único globo que reúne as condições físicas necessárias à vida e, por conseqüência, o único habitado. Isto é correto?
r.  Todos os globos que rolam no espaço têm sua estrutura particular, suas condições físicas diferentes, uns dos outros. A vida em cada um desses mundos se adapta a essas condições. Calculando as distâncias dos planetas entre si, sua massa e sua força de atração, demonstrou-se que suas condições físicas variam segundo sua posição no sistema solar e segundo sua inclinação sobre seus respectivos eixos. Sendo assim, pode-se calcular que Saturno, por exemplo, tem a mesma densidade que a madeira de erable; que Júpiter tem quase a da água; que em Marte o peso dos corpos é menos da metade que sobre a Terra, etc. Conclusão: as leis físicas variam em cada um desses globos e as leis da vida neles estão em relação com as de sua natureza íntima.
42.    Que se entende por mundos rudimentares ou primitivos?
r.  As moradas das almas novas. A vida ali é simplesmente inicial. São esses mundos inferiores que as antigas religiões chamam Inferi (inferior, os infernos).
43.    Poder-se-ia classificar esses diferentes planetas e distinguir os mundos segundo o grau de vida que neles se manifesta e segundo o valor dos seres que os habitam?
r.  Sim. Os Espíritos nos têm revelado que há cinco classes entre os mundos habitados ou habitáveis, que giram no espaço, são: 1º) os mundos rudimentares ou primitivos; 2º) os mundos expiatórios; 3º) os mundos regeneradores; 4º) os mundos felizes; 5º) os mundos celestes ou divinos.
44.    Que são os mundos expiatórios?
r.  Aqueles onde o bem e o mal estão em luta perpétua, onde a verdade e o erro estão sem cessar em conflito, mas onde, na realidade, a soma do mal sobrepuja a do bem, esperando que este diga a última palavra na luta.
45.    Que se entende por mundos regeneradores?
r.  São mundos de regeneração pela verdade e pela justiça: assim será a Terra, quando os homens forem mais esclarecidos, mais justos e melhores.
46.    Quem habita os mundos felizes?
r.  Espíritos que já realizaram uma grande parte de sua evolução e que vivem entre si na harmonia da fraternidade e do amor.
47.    Que são, enfim, os mundos celestes ou divinos?
r.  A morada dos Espíritos mais elevados e mais puros. Dali partem os missionários espirituais, que Deus envia para levar suas mensagens e sua vontade por todo o universo. Esses mundos sublimes representam os paraísos ou Elíseos de que falam as religiões e que todos os poetas da humanidade cantam.
48.    A que classe desses mundos pertence nossa Terra?
r.  Aos mundos expiatórios.
49.    Qual a prova?
r.  As leis físicas que a regem e as condições de vida dos seres que a habitam.
50.    Como assim?
r.  A Terra está inclinada profundamente sobre seu eixo, por isso está sujeita a variações perpétuas, que trazem bruscas mudanças de temperatura. A diferença das estações e dos climas e as perturbações atmosféricas fazem da vida humana um combate permanente contra a natureza, a doença e a morte. Tudo isso indica que a Terra é por excelência o planeta da expiação, do trabalho e da dor.
51.    Mas os outros globos não estão nas mesmas condições físicas e seu lugar não é o mesmo no mundo sideral?
r.  De maneira alguma. Nenhum desses globos tem o mesmo peso, nem o mesmo volume e não está colocado à mesma distância do sol que o aquece e ilumina. Nenhum tem a mesma inclinação sobre seu eixo; Júpiter, por exemplo, é de uma fixidez e de um equilíbrio inalteráveis; reina em sua superfície uma temperatura sempre igual.
52.    Pode-se dizer que na Terra, como em todo mundo expiatório, a soma do mal sobrepuja a do bem?
r.  Não se pode duvidar disso. A mais simples experiência da vida basta para comprová-lo. A história nos mostra quantos séculos foram precisos para a humanidade atingir o grau de civilização relativa a que ela chegou. Apesar disso, não se pode negar que o erro ainda obscureça aí muitas inteligências, o vício ali oprima a virtude; a força oprima o direito; o egoísmo sufoque o amor. Participar dessa luta, viver nessa sociedade perturbada, sendo muitas vezes a vítima e o mártir; é nisso que consiste o mérito e o progresso para os Espíritos encarnados na Terra.
53.    Que fazer, então, e como utilizar nossa vida neste mundo, para ser um dia mais feliz?
r.  Fazer o bem e aproveitar nossa vida na Terra para progredir, fazendo progredir os outros, de tal maneira que não sejamos mais obrigados a retornar, a não ser como missionário, como guia da humanidade.
O livro continua com mais perguntas so tirei estas; fonte 



[i]    Com relação às dimensões e distâncias expressas em léguas nas questões 35, 36 e 37, lembramos que esses quantitativos são aproximados e se referem ao conhecimento da Astronomia no século XIX. Hoje, com instrumentos astronômicos mais modernos, essas grandezas também são conhecidas com maior precisão (Nota do revisor).

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Espírita e Matéria

 

                                 III
                     Espírito e matéria

    Não há efeito sem causa; nada procede do nada. Esses são axiomas, isto é, verdades incontestáveis. Ora, como se constata em cada um de nós a existência de forças e de poderes que não podem ser considerados como materiais, há a necessidade, para explicar sua causa, de se chegar a uma outra fonte além da matéria, a esse princípio que chamamos alma ou espírito.
    Quando, descendo ao fundo de nós mesmos, querendo aprender a nos conhecer, a analisar nossas faculdades; quando, afastando de nossa alma a borra que a vida acumula, o espesso envelope de preconceitos, erros e sofismas que têm revestido nossa inteligência; penetrando nos recessos mais íntimos de nosso ser, encontramo-nos face a face com esses princípios augustos sem os quais não haveria grandeza para a humanidade: o amor ao bem, o sentimento de justiça e de progresso. Esses princípios, que se encontram em diversos graus, tanto entre os ignorantes quanto entre os homens de gênio, não podem vir da matéria, desprovida que está de tais atributos. E se a matéria não possui essas qualidades, como poderia formar, sozinha, os seres que delas são dotados? O senso do belo e do verdadeiro, a admiração que sentimos pelas grandes e generosas obras, não poderia ter a mesma origem que a carne de nossos membros ou o sangue de nossas veias. Está lá, na sua maior parte, como os reflexos de uma luz sublime e pura que brilha em cada um de nós, da mesma forma que o sol se reflete sobre as águas, quer estejam perturbadas ou límpidas.
    Em vão se pretende que tudo seja matéria. E apesar de que ainda que nos ressintamos de poderosos impulsos de amor e de bondade, já conseguimos amar a virtude, o devotamento, o heroísmo; o sentimento da beleza moral está gravado em nós; a harmonia das coisas e das leis nos penetra, nos arrebata. E, com tudo isso, nada nos distinguiria da matéria? Sentimos, amamos, possuímos consciência, vontade e razão e procederíamos de uma causa que não encerra essas qualidades em nenhum grau, de uma causa que não sente, não ama nem conhece nada, que é cega e muda? Superiores à força que nos produziu, seríamos mais perfeitos e melhores que ela!
    Uma tal maneira de ver não suporta um exame. O homem participa de duas naturezas. Por seu corpo, por seus órgãos, deriva da matéria; por suas faculdades intelectuais e morais, é espírito.
    Dizendo ainda mais exatamente, relativamente ao corpo humano, os órgãos que compõem essa admirável máquina são semelhantes a rodas incapazes de agir sem um motor, sem uma vontade que as coloque em ação. Esse motor é a alma. Um terceiro elemento religa os dois outros, transmitindo aos órgãos as ordens do pensamento. Esse elemento é o perispírito, matéria etérea que escapa aos nossos sentidos. Envolve a alma, acompanha-a após a morte nas suas peregrinações infinitas, depurando-se, progredindo com ela, constituindo um corpo diáfano, vaporoso. Voltaremos, mais adiante, a comentar sobre a existência desse perispírito, chamado também de duplo fluídico[i].
    O espírito jaz na matéria como um prisioneiro em sua cela; os sentidos são as aberturas pelas quais se comunica com o mundo exterior. Mas, enquanto a matéria, cedo ou tarde, declina, periclita e se desagrega, o espírito aumenta em poder, fortifica-se pela educação e experiência. Suas aspirações se engrandecem, se estendem para além do túmulo; sua necessidade de saber, de conhecer e de viver não tem limites. Tudo mostra que o ser humano pertence apenas temporariamente à matéria. O corpo não é senão uma vestimenta emprestada, uma forma passageira, um instrumento com a ajuda do qual a alma prossegue, nesse mundo, sua obra de depuração e de progresso. A vida espiritual é a vida normal, verdadeira, sem fim.

Léon Denis

O Porquê da Vida

Le Pourquoi de la Vie
1885

Solução Racional do Problema da Existência

O que somos?
De onde viemos?
Para onde vamos?


[i]   








Após alguns anos, uma certa escola se esforçou em substituir o dualismo da matéria e do espírito pela teoria da unidade de substância. Para ela a matéria e o espírito são estados diversos de uma só e mesma substância que, na sua evolução eterna, se afina, se depura, tornando-se inteligente e consciente. Sem abordar aqui a questão de fundo, que necessita de longos desenvolvimentos, é preciso reconhecer que a idéia que até agora se fazia da matéria estava errada. Graças às descobertas de Crookes, Becquerel, Curie, Lebon, a matéria nos aparece hoje sob estados muito sutis e, nesses estados, reveste-se de propriedades infinitamente variadas. Sua flexibilidade é extrema. A um certo grau de rarefação, transforma-se em energia. G. Lebon pode dizer, com aparente razão, que a matéria não é mais que a energia condensada e a energia, a matéria dissociada. Quanto a deduzir desses fatos que a energia inteligente, em um momento dado de sua evolução, torna-se consciente, é ainda uma hipótese. Para nós, há, entre o ser e o não ser, uma diferença de essência. Por outro lado, o monismo Haeckelien, recusando ao espírito humano uma vida independente do corpo e rejeitando toda noção de sobrevivência, termina logicamente nas mesmas conseqüências que o materialismo positivista e incorre nas mesmas críticas.