quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ciência Espírita...

 

A Ciência Espírita
À medida que vai o homem lentamente avançando na senda do conhecimento, o horizonte se dilata e novas perspectivas se vão ante ele desdobrando. Sua ciência é restrita; a Natureza, porém, não tem limites.
A Ciência não é mais que o conjunto das concepções de um século, que a Ciência do século seguinte ultrapassa e submerge. Tudo nela é provisório e incompleto. Versa o seu estudo sobre as leis do movimento, as manifestações da força e da vida; nada sabe ainda ela, entretanto, acerca das causas atuantes, da força e do movimento em seu princípio. O problema da vida lhe escapa e a essência das coisas permanece um mistério impenetrável para ela.
Mau grado às sistemáticas negações e à obstinação de certos sábios, todos os dias são as suas opiniões desmentidas nalgum ponto. É o que sucede aos representantes das escolas materialistas e positivistas. O estudo e a observação dos fenômenos psíquicos vêm desmoronar suas teorias sobre a natureza e o destino dos seres.
Não é a alma humana, como o afirmavam eles, uma resultante do organismo, com o qual se extinga; é uma causa que preexiste e sobrevive ao corpo.
A experiência dia a dia nos demonstra que a alma é dotada de uma forma fluídica, de um organismo íntimo imponderável, que possui sentidos próprios, distintos dos sentidos corporais, e entra em ação, insuladamente, quando ela exerce seus poderes superiores. Graças a ele, pode a alma no curso da vida, e durante o sono, desprender-se do invólucro físico, penetrar a matéria, transpor o espaço, perceber as realidades do mundo invisível. Dessa forma fluídica brotam irradiações, eflúvios, que se podem exteriorizar em camadas concêntricas ao corpo humano [i] e mesmo, em certos casos, condensar-se em graus diversos e materializar-se a ponto de impressionar placas fotográficas e aparelhos registradores.[ii]
A ação, à distância, de uma alma sobre outra se acha estabelecida pelos fenômenos telepáticos e magnéticos, pela transmissão do pensamento e exteriorização dos sentidos e das faculdades. As vibrações do pensamento podem-se propagar no espaço como a luz e o som e impressionar um outro organismo fluídico em afinidade com o do manifestante. As ondas psíquicas se propagam ao longe e vão despertar no invólucro do sensitivo impressões de vária natureza, conforme o seu estado dinâmico: visões, vozes ou movimentos.
Às vezes a própria alma, durante o sono, abandona seu envoltório material e, sob sua forma fluídica, torna-se visível à distância. Certas aparições têm sido ao mesmo tempo vistas por diversas pessoas; outras, exercido ação sobre a matéria, aberto portas, mudado objetos de lugar, deixado vestígios de sua passagem. Algumas têm impressionado animais.[iii]
As aparições de moribundos têm sido comprovadas milhares de vezes. As resenhas da Sociedade de Investigações Psíquicas, de Londres, os “Annales des Sciences Psychiques”, de Paris, inserem grande número delas. O Senhor Camille Flammarion, em seu excelente livro “O Desconhecido e os Problemas Psíquicos”, refere uma centena desses casos, em que há coincidência de morte, nos quais não se podem admitir meras alucinações, mas fatos gerais, com relação de causa e efeito. Esses fenômenos têm sido observados tantas vezes, apóia-se em tão numerosos e respeitáveis testemunhos, que sábios de excessiva prudência, como o Senhor Richet, da Academia de Medicina de Paris, chegaram a dizer: “Existe uma tal quantidade de fatos, impossíveis de explicar de outro modo a não ser pela telepatia, que é forçoso admitir-se uma ação à distância... O fato aparece provado, absolutamente provado.”
Nesses fenômenos já se encontra uma demonstração positiva da independência da alma. Se, com efeito, a inteligência fosse uma propriedade da matéria e devesse extinguir-se por ocasião da morte, não se poderia explicar como, no momento em que o corpo está mais abatido e o organismo cessa de funcionar, é que essa inteligência não raro se manifesta com intensidade mais viva, com extraordinária recrudescência de atividade.
Os casos de lucidez, de clarividência, de previsão do futuro são freqüentes nos moribundos. Nesses casos, o fato de desprender-se do corpo faculta ao espírito um novo campo de percepção. A alma patenteia, no momento da morte, faculdades, qualidades superiores às que possuía no estado normal. Força é reconhecer nisso uma prova de que a nossa personalidade psíquica não é resultante do organismo, a ele intimamente vinculado, mas que possui vida própria, diferente da do corpo, sendo antes este para ela uma prisão temporária e um estorvo.
Mais evidente ainda se torna esta demonstração, quando depois da morte pode o Espírito desencarnado encontrar no invólucro físico dos médiuns os elementos necessários para se materializar e impressionar os sentidos.
Pode-se então verificar, empregando balanças munidas de aparelhos registradores, que o corpo do médium perde uma parte do seu peso, encontrando-se essa diferença na aparição materializada.[iv]
*
A cada ano que passa, os fatos se multiplicam, os testemunhos se acumulam, a existência do mundo dos Espíritos se afirma com autoridade e prestígio crescentes. De meio século para cá o estudo da alma passou do domínio da Metafísica e da concepção puramente abstrata ao da experiência e da observação.
A vida se revela sob duplo aspecto: físico e suprafísico. O homem participa de dois modos de existência. Por seu corpo físico pertence ao mundo visível; por seu corpo fluídico ao mundo invisível. Esses dois corpos coexistem nele durante a vida. A morte é a sua separação.
Por sobre a nossa Humanidade material palpita uma Humanidade invisível, composta dos seres que viveram na Terra e se despojaram de suas vestes de carne. Acima dos vivos, encarnados em corpo mortal, os supervivos prosseguem, no Espaço, a existência livre do Espírito.
Essas duas Humanidades mutuamente se renovam mediante a morte e o nascimento. Elas se penetram, se influenciam reciprocamente e podem entrar em relação por intermédio de certos indivíduos, dotados de faculdades especiais, denominados médiuns.
De toda alma, encarnada ou desencarnada, emana e irradia uma força produtora de fenômenos, que se denomina força psíquica.
A existência dessa força acha-se estabelecida por inúmeras experiências. Podem-se observar os seus efeitos nas suspensões de mesas, deslocamentos de objetos sem contacto, nos casos de levitação, etc.
A ação dos invisíveis se manifesta nos fenômenos de escrita direta, nos casos de incorporação, nas materializações e aparições momentâneas e nas fotografias e moldagens.
Aparições materializadas têm sido fotografadas em presença de numerosas testemunhas, como, por exemplo, o Espírito Katie King, em casa de W. Crookes, os Espíritos Iolanda e Lélia, na da Senhora d'Espérance, e o Abdullah, fixado na placa sensível por Aksakof.[v]
Impressões e moldes de mãos, pés, faces, deixados em substâncias moles ou friáveis por formas materializadas, foram obtidos por Zoellner, astrônomo alemão, pelos Drs. Wolf, Friese, etc. Os moldes, constituídos de uma só peça, reproduziam as flexões dos membros, as particularidades da estrutura e as alterações acidentais da pele.[vi]
Semelhante ação ainda se manifesta nos fenômenos de incorporação, como os que foram assinalados pelo Doutor Hodgson, em seu estudo sobre a faculdade da Senhora Piper.[vii] O autor, adversário confesso da mediunidade em todas as suas aplicações, havia começado a pesquisa com o fim de desmascarar o que considerava impostura. Declara ele ter prosseguido as observações durante doze anos, em grande número de sessões, no curso das quais cento e vinte personalidades invisíveis se manifestaram, entre outras a de George Pellew, seu amigo de infância, como ele membro da “Psychical Research Society”, falecido havia muitos anos. Essas personalidades lhe revelaram fatos ignorados de toda pessoa viva na Terra. Por isso diz ele: “A demonstração da sobrevivência me foi feita de modo a excluir mesmo a possibilidade de uma dúvida.” [viii]
Os professores Ch. W. Elliot, presidente da Universidade de Harvard; W. James, professor de psicologia na mesma Universidade; Newbold, professor de psicologia da Universidade de Pensilvânia, e outros sábios tomaram parte nessas experiências e referendaram tais declarações.
Em uma obra mais recente,[ix] o professor Hyslop, da Universidade de Colúmbia, Nova Iorque, se externa no mesmo sentido a respeito da Senhora Piper, que ele observou em grande número de sessões, realizadas com as maiores reservas. O professor era apresentado sob o nome de Smith e punha uma máscara preta, que ao seu mais íntimo amigo não permitiria reconhecê-lo, e sempre se absteve de pronunciar uma única palavra, de sorte que nem a Senhora Piper, nem pessoa alguma, poderia descobrir o menor indício de sua identidade.
Foi nessas condições que o professor pôde entreter com seus falecidos pais, pelo órgão da Senhora Piper em transe sonambúlico, variadas palestras, abundantes de pormenores exatos, de particularidades, por ele mesmo esquecidas, de sua vida íntima. Donde conclui ele:
“Quando se considera o fenômeno da Senhora Piper, é preciso eliminar tanto a transmissão de pensamento, como a ação telepática. Examinando com imparcialidade o problema, não se lhe pode dar outra solução a não ser a intervenção dos mortos.”
No correr do ano de 1900, surgiram no seio de assembléias científicas os mais imponentes testemunhos em favor do Espiritismo. Uma parte considerável lhe foi concedida nos programas e trabalhos do Congresso de Psicologia de Paris, pelos representantes da ciência oficial. No dia 22 de agosto, reunidas todas as seções, foi consagrada uma sessão plenária ao exame dos fenômenos psíquicos. Um dos presidentes honorários do Congresso, Myers, professor da Universidade de Cambridge, justamente célebre, não somente como experimentador, mas ainda como moralista e filósofo, procedeu à leitura de um trabalho sobre o “transe, ou mediunidade de incorporações”.[x]
Depois de haver enumerado “uma série de experiências atestadas por mais de vinte testemunhas competentes, as quais asseguraram que os fatos revelados pela Sra. Thompson sonambulizada lhes eram absolutamente desconhecidos e evidenciavam o caráter e traziam a lembrança de certas pessoas mortas, das quais os ditados obtidos afirmavam provir”, assim conclui ele:
“Afirmo que essa substituição de personalidade, ou incorporação de espírito, ou possessão, assinala verdadeiramente um progresso na evolução da nossa raça. Afirmo que existe um espírito no homem, e que é salutar e desejável que esse espírito, como se infere de tais fatos, seja capaz de se desprender parcial e temporariamente de seu organismo, o que lhe facultaria uma liberdade e visão mais extensas, ao mesmo tempo em que permitiria ao espírito de um desencarnado fazer uso desse organismo, deixado momentaneamente vago, para entrar em comunicação com os outros espíritos ainda encarnados na Terra. Julgo poder assegurar que muitos conhecimentos já se têm adquirido nesse domínio e que muitos outros restam ainda a adquirir para o futuro.”
Na quinta seção desse Congresso foram consagradas três sessões aos mesmos estudos. Os Drs. Paul Gibier, diretor do Instituto Anti-Rábico de Nova Iorque; Darteux, diretor dos “Annales des Sciences Psychiques”; Encausse, Joire, Pascal, etc., remeteram ou apresentaram pessoalmente trabalhos muito documentados, que estabelecem a realidade dos fenômenos psíquicos e a comunicação possível com os mortos.
Um instituto internacional para o estudo dos fenômenos psíquicos, entre outros os da mediunidade, foi organizado ao terminar o Congresso de Psicologia. Entre os membros da comissão diretora encontramos, no que toca à França, os nomes dos Srs. Richet, professor da Faculdade de Medicina e diretor da “Revue Scientifique”; o Coronel De Rochas, C. Flammarion, o Dr. Duclaux, diretor do Instituto Pasteur; Sully-Prudhomme, Fouillée, Bergson, Séailles, etc.; no estrangeiro, tudo o que de mais ilustre possui a Europa entre os representantes da ciência psíquica: W. Crookes, Lodge, Aksakof, Lombroso, Dr. Ochorowicz, etc.
Outras importantes testificações em favor do Espiritismo foram prestadas nesse ano de 1900. O Dr. Bayol, antigo governador do Dahomey, transmitiu ao Congresso Espírita e Espiritualista, reunido em Paris no mês de setembro, a narrativa de uma série completa de experiências de materializações, desde a aparição de uma forma luminosa até o molde, em parafina, de um rosto de Espírito, que diz ele ser o de Acella, jovem romana falecida em Arles, no tempo dos Antoninos. Os Doutores Bonnet, Chazarain, Dusart, da Faculdade de Paris, exibiram testemunhos da mesma natureza e provas de identidade de Espíritos.[xi]
O professor Charles Richet, da Academia de Medicina de Paris, num longo artigo sob o título “Deve-se estudar o Espiritismo”, publicado nos “Annales des Sciences Psychiques” de janeiro de 1905, reconhece que “nenhuma contradição existe entre a ciência clássica e o mais extraordinário fenômeno de Espiritismo. A própria materialização – diz ele – é um fenômeno estranho, desconhecido, inusitado, mas é um fenômeno que nada contradiz. E nós sabemos, pelo testemunho da História,[xii] que a Ciência atual se compõe de fatos que outrora pareceram estranhos, desconhecidos, inusitados... Tão invulnerável é a Ciência quando estabelece fatos, quão deploravelmente sujeita a errar quando pretende estabelecer negações.”
E o Sr. Charles Richet assim termina:
“1º- Não há contradição alguma entre os fatos e teorias do Espiritismo e os fatos positivos estabelecidos pela Ciência.
“2º- O número dos escritos, memórias, livros, narrações, notas, experiências, é tão considerável e firmado por autoridades tais, que não é licito rejeitar esses inúmeros documentos sem um estudo aprofundado.
“3º- A nossa ciência contemporânea se acha tão pouco adiantada ainda relativamente ao que serão um dia os conhecimentos humanos, que tudo é possível, mesmo o que mais extraordinário se nos afigura... Em lugar, portanto, de parecer ignorarem o Espiritismo, os sábios o devem estudar. Físicos, químicos, fisiologistas, filósofos, cumpre que se dêem ao trabalho de tomar conhecimento dos fatos espíritas. Um longo e árduo estudo é necessário. Será indubitavelmente frutuoso.”
Pouco depois do artigo do Sr. Charles Richet, uma obra importante aparecia, que teve grande repercussão em todo o mundo: “Human Personality”, de F. Myers, professor de Cambridge.[xiii] É um estudo profundo e metódico dos fenômenos espíritas, firmado numa opulenta documentação e rematado por uma síntese filosófica em que são magistralmente expostas as vastas conseqüências da ciência psíquica.
As conclusões de Frederic Myers são formais: “A observação e a experimentação – diz ele – induziram muitos investigadores, a cujo número pertenço (of whom I am one), a crer na comunicação, assim direta como telepática, não só entre os Espíritos dos vivos, mas entre os Espíritos dos que permanecem neste mundo e os que o abandonaram.” [xiv]
O professor Flournoy, da Universidade de Genebra, em seu livro “Espíritos e Médiuns”, página 266, aprecia nestes termos a obra de F. Myers:
“Ninguém pode prever atualmente que sorte reservará o futuro à doutrina espírita de Myers. Se as vindouras descobertas confirmarem a sua tese da intervenção, empiricamente verificável, dos desencarnados, na trama física ou psicológica do nosso mundo fenomenal, seu nome então será inscrito no livro áureo dos grandes iniciadores e, ao lado dos de Copérnico e Darwin, completará a tríade dos gênios que mais profundamente revolucionaram o pensamento científico na ordem cosmológica, biológica e psicológica.”
De 1905 a 1908 o Instituto Geral Psicológico de Paris tomou a iniciativa de um grande número de sessões experimentais, com o concurso da médium Eusápia Paladino e sob a inspeção dos Srs. Curie, Richet, D'Arsonval, Dubierne, etc. O relatório do secretário do Instituto, Sr. Courtier, posto que cheio de reticências e reservas, consigna, entretanto, que fenômenos de levitação e deslocação de objetos, sem contacto, se produziram no curso das sessões. Foram tomadas todas as precauções contra as possibilidades de erro ou fraude. Instrumentos especiais foram fabricados e utilizados no registro mecânico dos fenômenos. Uma incessante fiscalização foi exercida e o emprego de aparelhos fotográficos permitiu afastar qualquer hipótese de alucinação coletiva.
Tendo o Sr. Dubierne dito, numa das sessões, que “John”, o Espírito-guia de Eusápia, podia quebrar a mesa, ouviu-se imediatamente partir-se um dos pés desta.
Eusápia aumentava e diminuía à vontade o próprio peso e o da mesa. À distância de 45 centímetros produziu a ruptura de um tubo de borracha e fez quebrar-se um lápis. Quebrou em três pedaços uma pequena mesa de madeira, colocada atrás de sua cadeira, anunciando previamente o número dos fragmentos, coisa incompreensível, uma vez que ela estava na obscuridade e de costas voltadas para a mesa.[xv]
Apesar desses fatos, o Dr. Le Bon lança aos espíritas e aos médiuns, no “Matin” de 20 de maio de 1908, o seguinte repto: “Embora declare o professor Morsélli que o levantamento de uma mesa, sem contacto, é o ‘ABC’ dos fenômenos espíritas, duvido muito que se possa produzir... Ofereço 500 francos a quem me mostrar o fenômeno em plena luz.”
Alguns dias depois, um jornalista muito conhecido, o Sr. Montorgueil, respondia no “L'Eclair”: “Somos centenas os que temos visto fenômenos de levitação de mesas, sem contacto. Vêm-nos agora dizer que há sugestão, prestidigitação, artifício. A exemplo do Sr. Le Bon, ofereço 500 francos ao prestidigitador que se apresentar no “L'Éclair” e nos enganar com os mesmos artifícios, reproduzindo os mesmos fenômenos.”
O astrônomo C. Flammarion, por sua parte, respondia no “Matin” ao Sr. Le Bon: “Em minha obra ‘Forças Naturais Desconhecidas’, se encontram fotografias diretas e sem retoques, a cujo propósito estou também perfeitamente disposto a dar um prêmio de 500 francos a quem for capaz de nelas descobrir qualquer artifício.”
E adiante diz: “Vêem-se rotações operarem-se sem contacto, tendo sido a farinha espalhada como por um sopro de fole e sem que dedo algum a houvesse tocado... Durante essas experiências víamos um piano, do peso de 300 quilogramas, desferir sons e levantar-se, quando ao seu pé havia apenas um menino de onze anos, médium sem o saber.”
Finalmente, o Dr. Ochorowicz, professor da Universidade de Varsóvia, publicava nos “Annales des Sciences Psychiques” de 1910 (ver a coleção completa desse ano) a narrativa de suas experiências com a médium Srta. Tomszick, acompanhada de reproduções fotográficas de numerosos casos de levitação de objetos sem contacto. Esses fatos representam um conjunto de provas objetivas capazes de, por sua natureza, convencer os mais cépticos.
O professor César Lombroso, da Universidade de Turim, célebre no mundo inteiro por seus trabalhos de antropologia criminalista, publicava em 1910, pouco antes de sua morte, um livro, intitulado “Hipnotismo e Espiritismo”,[xvi] em que relatava todas as suas experiências, prosseguidas durante anos, e concluía num sentido absolutamente afirmativo, sob o ponto de vista espírita. Essa obra é um belo exemplo de probidade científica, a opor ao preconceito e às opiniões rotineiras da maior parte dos sábios franceses. Julgamos dever aqui reproduzir as considerações que induziram Lombroso a escrever: “Quando me dispus a escrever um livro – diz ele – sobre os fenômenos denominados espíritas, ao termo de uma existência consagrada ao desenvolvimento da Psiquiatria e da Antropologia, os meus melhores amigos me acabrunharam de objeções, dizendo que eu ia arruinar a minha reputação. Apesar de tudo, não hesitei em prosseguir, considerando meu dever rematar a luta em que me empenhara pelo progresso das idéias, lutando pela mais contestada e escarnecida idéia do século.”
*
Assim, dia a dia as experiências se repetem, os testemunhos se tornam cada vez mais numerosos.
Todos esses fatos constituem já, em seu conjunto, uma nova ciência, baseada no método positivo. Para edificar sua doutrina, o moderno Espiritualismo não teve necessidade de recorrer à especulação metafísica; foi-lhe suficiente apoiar-se na observação e na experiência. Não podendo os fenômenos que ele estuda explicar-se por leis conhecidas, longa e ponderadamente os examinou e analisou e, em seguida, por encadeamento racional, dos efeitos remontou às causas. A intervenção dos Espíritos, a existência do corpo fluídico, a exteriorização dos vivos não foram afirmadas senão depois que os fatos vieram, aos milhares, demonstrar a sua realidade.
A nova ciência espiritualista não é, pois, obra de imaginação; é o resultado de longas e pacientes pesquisas, o fruto de inúmeras investigações. Os homens que as empreenderam são conhecidos em todas as esferas científicas: são portadores de nomes célebres e acatados.
Durante anos têm sido efetuadas rigorosas perquirições por comissões de sábios profissionais. As mais conhecidas são o inquérito da Sociedade Dialética de Londres, o da Sociedade de Investigações Psíquicas, que se mantém há vinte anos e tem produzido consideráveis resultados, e, mais recentemente, o do Sr. Flammarion. Todos registram milhares de observações, submetidas ao mais severo exame, às mais escrupulosas verificações.
Seja qual for a parte que se possa atribuir às exagerações, fraude ou embuste, do conjunto desses estudos se destaca um número tão imponente de fatos e de provas que já não é lícito, depois disso, a quem preze a verdade, permanecer silencioso ou indiferente. Passou o tempo das ironias levianas. O desdém não é uma solução. É preciso que a Ciência se pronuncie, porque o fenômeno aí está, revestindo tantos aspectos, multiplicando-se de tal modo, que se impõe a sua atenção. A alma, livre e imortal, não mais se afirma como entidade vaga e ideal, mas como um ser real, associado a uma forma e produtor de uma força sutil cuja manifestação constante solicita a atenção dos investigadores.
Desde as pancadas e os simples fatos de tiptologia até as aparições materializadas, o fenômeno espírita se desdobrou, sob formas cada vez mais imponentes, levando a convicção aos mais cépticos e mais desconfiados.
É o fim do sobrenatural e do milagre; mas desse conjunto de fatos, tão antigos como a própria Humanidade, até aqui mal observados e compreendidos, resulta agora uma concepção mais alta da vida e do Universo e o conhecimento de uma lei suprema que vai guiando os seres, em sua ascensão através dos esplendores do infinito, para o bem, para o perfeito!
Léon Denis : Livro No Invesível


[i]    Ver De Rochas, “Extériorisation de la Sensibilité” e “Extériorisation de la Motricité”, passim.
[ii]   Ver Dr. Baraduc, “A Alma Humana, seus Movimentos, suas Luminosidades”, passim.
[iii]   “Proceedings of the Society Psychical Research”, 1882 a 1902.
[iv]   Ver W. Crookes, “Investigações sobre os Fenômenos do Espiritualismo”, págs. 159 e seguintes; A. Russel Wallace, “Os Milagres e o Moderno Espiritualismo”, págs. 325 e seguintes; Aksakof, “Animismo e Espiritismo”, cap. I.
[v]    Ver W. Crookes, ob. cit.; E. d'Espérance, “No País das Sombras”, cap. XVIII; Aksakof, ob. cit.
[vi]   Ver Aksakof, “Animismo e Espiritismo”, cap. I, B.
[vii]  “Proceedings Psychical R.S.P.”, tomo XV. Ver também M. Sage, “Outra Vida?” (“Mrs. Piper”), passim.
[viii]  “Proceedings”, 1897.
[ix]   Relatório do professor Hyslop, “Proceedings”; G. Delanne, “Investigações sobre a Mediunidade”, pág. 355.
[x]    Ver a “Resenha das sessões do IV Congresso Internacional de Psicologia”, págs. 113 a 121, reproduzida pela “Revue Scientifique et Morale du Spirítisme”, outubro de 1900, pág. 213; setembro de 1902, pág. 158.
[xi]   Ver a “Resenha do Congresso Espírita e Espiritualista”, de 1900, págs. 241 e seguintes.
[xii]  A História igualmente nos atesta que não são desconhecidos, como afirma o professor Richet, os fenômenos de aparição e de materialização.
[xiii]  Traduzida pelo Dr. Sankelevitch e publicada em francês com o título “La Personnalité Humaine” (“A Personalidade Humana”) reduzida a um só volume. A edição inglesa é em dois, in 8º, F. Alcan, editor, 1905.
[xiv]  “Human Personality”, tomo II, pág. 287.
[xv]   Ver “Boletim do Instituto Geral Psicológico”, de dezembro de 1908, e a obra de César Lombroso, “Hipnotismo e Espiritismo”.
[xvi]  César Lombroso, – “Hipnotismo e Espiritismo”, tradução Rossigneux, prefácio.

terça-feira, 24 de julho de 2012

A Doutrina da Fé...









A DOUTRINA DA FÉ

A fé cega é como um farol cujo vermelho clarão não pode transpassar o nevoeiro.
Léon Denis


Prosseguindo no estudo dos textos Evangélicos citados pelo Senhor professor Faustino, continuamos a acompanhar s.s. par passo em suas pesquisas apresentando-lhe a controvérsia de suas conclusões à priori tão levianamente distribuídas à luz da publicidade.
Diz o ilustre moço: "Não admitindo a comunicação direta entre a criatura e o Criador, senão por intermédio dos espíritos, nega o que afirma o Evangelista citado". (Mateus VI, 33).
Ora, vejamos o que diz o Evangelista citado, Mateus VI, 33: "Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e todas as coisas vos serão acrescentadas". Esta passagem do Evangelho, não vem absolutamente ao caso das considerações feitas pelo professor Faustino, e quem não participar da nossa opinião que se de ao trabalho de ler todo o cap. VI do Evangelista evocado que há de ter ocasião de se convencer que o Senhor professor Faustino, habilmente destacou um versículo da carta do Apóstolo para acomodá-lo (se acomodasse) às suas idéias sistemáticas.
"Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça e todas as coisas vos serão acrescentadas", quer dizer: abandonai o egoísmo que vos afasta do vosso Criador, andai em espírito se quiserdes participar da herança reservada para aqueles que a procuram. "Buscai primeiramente o Reino de Deus", é um complemento do que Jesus disse e o Evangelista narrou em sua carta: "Não andeis cuidadoso quanto a vossa vida pelo que haveis de comer ou beber ou vestir: quando orardes, dizei: Pai nosso etc., etc.; quando derdes esmola não toqueis a trombeta; não ajunteis tesouro na terra onde a traça e a ferrugem tudo os consomem, porque onde estiver o vosso tesouro aí estará o vosso coração, etc. etc.".
Aí tem s. s. o sentido do trecho citado por s. s. cuja interpretação só pode ser dada pelo Redentor da humanidade. Logo adiante diz o prof. Faustino: "Que importa que as sessões espíritas sejam abertas e encerradas em nome de Deus se nem por isso estão livres de condenação. Mateus VII, 21 e 22".
O raciocínio sutil e insidioso, permita-nos s. s. a expressão, em vez de satisfazer a própria pessoa que o formulou, vai ainda concorrer para que a sua consciência num desses momentos de frisante lucidez se revolte contra o ato pecaminoso.
Serão cristãos os que assim se dizem, sem se tornarem melhores, mais caridosos e indulgentes para com o próximo? Não se lembra, s. s. o que disse Paulo: "Ainda mesmo que tivesse o dom da profecia, se não tivesse caridade nada seria?"
Onde está a condenação das sessões espíritas no texto do Evangelista?
Não tomamos por trabalho transcrever os v. v. 21 e 22 do cap. VII de Mateus, para melhor esclarecimento dos que nos lêem:
"Nem todo o homem que diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? - em teu nome não expulsamos demônios? - em teu nome não fizemos muitas maravilhas?"
Estas palavras de Cristo são a condenação mais formal da doutrina da fé propagada pelo ilustre professor. Jesus quis, com aquelas palavras dizer: "que a fé sem as obras é morta". Chamá-lo de Senhor e não seguir os seus ensinamentos para nada serve. Expelir os demônios, profetizar, fazer maravilhas não é ser Cristão, mas sim praticar a caridade, o bem, etc. Para que servirá honrar o Senhor com os lábios, quando damos pasto ao nosso orgulho e egoísmo, a cupidez e a todas as paixões?
O que o Cristo condenou não foi: "profetizar, - expelir demônios, fazer maravilhas; não, mas sim a hipocrisia, as paixões desordenadas, etc., etc.
Já dissemos que não é bastante fazer sessões, - e dizer-se espírita ou cristão, é preciso que a Caridade seja o nosso lema porque havendo caridade ("Deus caritas est") há a verdadeira fé que nasceu dos conhecimentos adquiridos pela observação e estudo.
Prosseguindo diz o ilustre moço: "Proclamando como principio fundamental a expiação e reparação do pecado, nega a Redenção por Cristo e contesta ipso fato o que afirma S. Marcos no cap. II, 5 a 10".
Esta passagem se refere ao caso da cura do paralítico por Jesus, que ainda vem confirmar a expiação do pecado cometido. "Filho, disse Jesus ao paralítico, estão perdoados os teus pecados, e o paralítico levantou-se, tomou o seu leito, etc. etc.". Parece bem claro que se a paralisia não tivesse por causa os pecados cometidos pelo pobre homem, que já tinham sido expiados pelo sofrimento, - cadinho depurador das almas endurecidas, Jesus não diria francamente - "estão perdoados os teus pecados".
O último artigo do Senhor professor Faustino encerra uma série de contradições que por si só já constitui a verdadeira refutação de suas conjeturas inconcebíveis. Por exemplo, diz o Senhor professor: "O elemento da propaganda espírita são os truques de falso...". E mais abaixo diz: "Já dissemos e repetimos que não contestamos tais fenômenos, mas, etc. , etc... ".
No que fica o ilustre moço: os fenômenos existem, ou não existem, - são reais ou são truques de falso.. ?
Cairbar
Cairbar Schutel - Espiritismo e Protestantismo


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segunda-feira, 23 de julho de 2012

A Doutrina Secreta

                                               4
                                                              A Doutrina Secreta

Qual a verdadeira doutrina do Cristo? Os seus princípios essenciais acham-se claramente enunciados no Evangelho. É a paternidade universal de Deus e a fraternidade dos homens, com as conseqüências morais que daí resultam; é a vida imortal a todos franqueada e que a cada um permite em si próprio realizar “o reino de Deus”, isto é, a perfeição, pelo desprendimento dos bens materiais, pelo perdão das injúrias e o amor ao próximo.
Para Jesus, numa só palavra, toda a religião, toda a filosofia consiste no amor:
“Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam; para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus, o qual faz erguer-se o seu sol sobre bons e maus, e faz chover sobre justos e injustos. Porque, se não amais senão os que vos amam, que recompensa deveis ter por isso?” (Mateus, V, 44 e seguintes.).
Desse amor o próprio Deus nos dá o exemplo, porque seus braços estão sempre abertos para o pecador:
“Assim, vosso Pai que está nos céus não quer que pereça um só desses pequeninos.”
O sermão da montanha resume, em traços indeléveis, o ensino popular de Jesus. Nele é expressa a lei moral sob uma forma que jamais foi igualada.
Os homens aí aprendem que não há mais seguros meios de elevação que as virtudes humildes e escondidas.
“Bem-aventurados os pobres de espírito (isto é, os espíritos simples e retos), porque deles é o reino dos céus. – Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. – Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. – Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. – Bem-aventurados os limpos de coração, porque esses verão a Deus.” (Mateus, V, 1 a 12; Lucas, VI, 20 a 25.)
O que Jesus quer não é um culto faustoso, não é umas religiões sacerdotais, opulentas de cerimônias e práticas que sufocam o pensamento, não; é um culto simples e puro, todo de sentimento, consistindo na relação direta, sem intermediário, da consciência humana com Deus, que é seu Pai:
“É chegado o tempo em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, porque tal quer, também, sejam os que o adorem. Deus é espírito, e em espírito e verdade é que devem adorar os que o adoram.”
O ascetismo é coisa vã. Jesus limita-se a orar e a meditar, nos sítios solitários, nos templos naturais que têm por colunas as montanhas, por cúpula a abóbada dos céus, e de onde o pensamento mais livremente se eleva ao Criador.
Aos que imaginam salvar-se por meio do jejum e da abstinência, diz:
“Não é o que entra pela boca o que macula o homem, mas o que por ela sai.”
Aos rezadores de longas orações:
“Vosso Pai sabe do que careceis, antes de lho pedirdes.”
Ele não exige senão a caridade, a bondade, a simplicidade: “Não julgueis e não sereis julgados. Perdoai e sereis perdoados. Sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso. Dar é mais doce do que receber”.
“Aquele que se humilha será exaltado; o que se exalta será humilhado”.
“Que a tua mão esquerda ignore o que faz a direita, a fim de que tua esmola fique em segredo; e então teu Pai que vê no segredo, te retribuirá.”
E tudo se resume nestas palavras de eloqüente concisão:
“Amai o vosso próximo como a vós mesmos e sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito. Nisso se encerram toda a lei e os profetas.”
Sob a suave e meiga palavra de Jesus, toda impregnada do sentimento da natureza, essa doutrina se reveste de um encanto irresistível, penetrante. Ela é saturada de terna solicitude pelos fracos e pelos deserdados. É a glorificação, a exaltação da pobreza e da simplicidade. Os bens materiais nos tornam escravos; agrilhoam o homem à Terra. A riqueza é um estorvo; impede os velos da alma e a retém longe do “reino de Deus”. A renúncia, a humildade, desatam esses laços e facilitam a ascensão para a luz.
Por isso é que a doutrina evangélica permaneceu através dos séculos como a expressão máxima do espiritualismo, o supremo remédio aos males terrestres, a consolação das almas aflitas nesta travessia da vida, semeada de tantas lágrimas e angústias. É ainda ela que faz, a despeito dos elementos estranhos que lhe vieram misturar, toda a grandeza, todo o poder moral do Cristianismo.
*
A doutrina secreta ia mais longe. Sob o véu das parábolas e das ficções, ocultava concepções profundas. No que se refere a essa imortalidade prometida a todos, definia-lhe as formas afirmando a sucessão das existências terrestres, nas quais a alma, reencarnada em novos corpos, sofreria as conseqüências de suas vidas anteriores e prepararia as condições do seu destino futuro. Ensinava a pluralidade dos mundos habitados, as alternações de vida de cada ser: no mundo terrestre, em que ele reaparece pelo nascimento, no mundo espiritual, ao qual regressa pela morte, colhendo em um e outro desses meios os frutos bons ou maus do seu passado. Ensinava a íntima ligação e a solidariedade desses dois mundos e, por conseguinte, a comunicação possível do homem com os espíritos dos mortos que povoam o espaço ilimitado.
Daí o amor ativo, não somente pelos que sofrem na esfera da existência terrestre, mas também pelas almas que em torno de nós vagueiam atormentadas por dolorosas recordações. Daí a dedicação que se devem as duas humanidades, visível e invisível, a lei de fraternidade na vida e na morte e a celebração do que chamavam “os mistérios”, a comunhão pelo pensamento e pelo coração com os que, Espíritos bons ou medíocres, inferiores ou elevados, compõem esse mundo invisível que nos rodeia, e sobre o qual se abrem esses dois pórticos por onde todos os seres alternativamente passam: o berço e o túmulo.
A lei da reencarnação acha-se indicada em muitas passagens do Evangelho e deve ser considerada sob dois aspectos diferentes: à volta à carne, para os Espíritos em via de aperfeiçoamento; a reencarnação dos Espíritos enviados em missão à Terra.
Em sua conversação com Nicodemos, Jesus assim se exprime:
“Em verdade te digo que, se alguém não renascer de novo, não poderá ver o reino de Deus.” Objeta-lhe Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo já velho?” Jesus responde: “Em verdade te digo que, se um homem não renasce da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do espírito é espírito. Não te maravilhes de te dizer: importa-vos nascer outra vez. O vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do espírito.” (João, III, 3 a 8.)
Jesus acrescenta estas palavras significativas: “Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas?”
O que demonstra que não se tratava do batismo, que era conhecido pelos judeus e por Nicodemos, mas precisamente da reencarnação já ensinada no “Zohar”, livro sagrado dos hebreus.[i]
Esse vento, ou esse espírito que sopra onde lhe apraz, é a alma que escolhe novo corpo, nova morada, sem que os homens saibam de onde vem, nem para onde vai. É a única explicação satisfatória.
Na Cabala hebraica, a água era a matéria primordial, o elemento frutificado. Quanto à expressão Espírito Santo, que se acha no texto e que o torna incompreensível, é preciso notar que a palavra santo nele não se encontra em sua origem e que foi aí introduzida muito tempo depois, como se deu em vários outros casos.[ii] É preciso, por conseguinte, ler: renascer da matéria e do espírito.
Noutra ocasião, a propósito de um cego de nascença, encontrado de passagem, os discípulos perguntam a Jesus:
“Mestre, quem foi que pecou? Foi este homem, ou seu pai, ou sua mãe, para que ele tenha nascido cego?” (João, IX, 1 e 2).
A pergunta indica, antes de tudo, que os discípulos atribuíam a enfermidade do cego a uma expiação. Em seu pensamento, a falta precedera a punição; tinha sido a sua causa primordial. É a lei da conseqüência dos atos, fixando as condições do destino. Trata-se aí de um cego de nascença; a falta não se pode explicar senão por uma existência anterior.
Daí essa idéia da penitência, que reaparece a cada momento nas Escrituras: “Fazei penitência”, dizem elas constantemente, isto é, praticai a reparação, que é o fim da vossa nova existência; retificai vosso passado, espiritualizai-vos, porque não saireis do domínio terrestre, do círculo das provações, senão depois de “haverdes pagado até o último ceitil.” (Mateus, V, 26).
Em vão têm procurado os teólogos explicar doutro modo, que não pela reencarnação, essa passagem do Evangelho. Chegaram a raciocínios, pelo menos, estranhos. Assim foi que o sínodo de Amsterdã não pôde sair-se da dificuldade senão com esta declaração: “o cego de nascença havia pecado no seio de sua mãe”.[iii]
Era também opinião corrente, nessa época, que Espíritos eminentes vinham, em novas encarnações, continuar, concluir missões interrompidas pela morte. Elias, por exemplo, voltara à Terra na pessoa de João Batista. Jesus o afirma nestes termos, dirigindo-se à multidão:
“Que saíste a ver? Um profeta? Sim, eu vo-lo declaro, e mais que um profeta. E, se o quereis compreender, ele é o próprio Elias que devia vir. – O que tem ouvidos para ouvir, ouça.” (Mateus, XI, 9, 14 e 15)
Mais tarde, depois da decapitação de João Batista, ele o repete aos discípulos:
“E seus discípulos o interrogam, dizendo: Porque, pois, dizem os escribas que importa vir primeiramente Elias? – Ele, respondendo, lhes disse:”
“Elias, certamente, devia vir e restabelecer todas as coisas. Mas eu vo-lo digo: Elias já veio e eles não o conheceram, antes lhe fizeram quanto quiseram. – Então, conheceram seus discípulos que de João Batista é que ele lhes falara.” (Mateus, XVII, 10, 11, 12 e 15).
Assim, para Jesus, como para os discípulos, Elias e João Batista eram a mesma e única individualidade. Ora, tendo essa individualidade revestido sucessivamente dois corpos, semelhante fato não se pode explicar senão pela lei da reencarnação.
Numa circunstância memorável, Jesus pergunta a seus discípulos: “Que dizem do filho do homem?”
E eles lhe respondem:
“Uns dizem: é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas.” (Mateus, XVI, 13, 14; Marcos, VIII, 28)
Jesus não protesta contra essa opinião como doutrina, do mesmo modo que não protestara no caso do cego de nascença. Ao demais, a idéia da pluralidade das vidas, dos sucessivos graus a percorrer para se elevar à perfeição, não se acha implicitamente contida nestas palavras memoráveis: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.” Como poderia a alma humana alcançar esse estado de perfeição em uma única existência?
De novo encontramos a doutrina secreta, dissimulada sob véus mais ou menos transparentes, nas obras dos apóstolos e dos padres da Igreja dos primeiros séculos. Não podiam estes dela falar abertamente. Daí as obscuridades da sua linguagem.
Aos primeiros fiéis escrevia Barnabé:
“Tanto quanto pude, acredito ter-me explicado com simplicidade e nada haver omitido do que pode contribuir para vossa instrução e salvação, no que se refere às coisas presentes, porque, se vos escrevesse relativamente às coisas futuras, não compreenderíeis, porque elas se acham expostas em parábolas.” (Epístola católica de São Barnabé, XVII, l, 5).
Em observância a esta regra é que um discípulo de São Paulo, Hermas, descreve a lei das reencarnações sob a figura de “pedras brancas, quadradas e lapidadas”, tiradas da água para servirem na construção de um edifício espiritual. (Livro do Pastor, III, XVI, 3, 5).
“Porque foram essas pedras tiradas de um lugar profundo e em seguida empregadas na estrutura dessa torre, pois que já estavam animadas pelo espírito? – Era necessário, diz-me o senhor, que, antes de serem admitidas no edifício, fossem trabalhadas por meio da água. Não poderiam entrar no reino de Deus por outro modo que não fosse despojando-se da imperfeição da sua primeira vida.”
Evidentemente essas pedras são as almas dos homens; as águas[iv] são as regiões obscuras, inferiores, as vidas materiais, vidas de dor e provação, durante as quais as almas são lapidadas, polidas, lentamente preparadas, a fim de tomarem lugar um dia no edifício da vida superior, da vida celeste. Há nisso um símbolo perfeito da reencarnação, cuja idéia era ainda admitida no século III e divulgada entre os cristãos.
Dentre os padres da Igreja, Orígenes é um dos que mais eloqüentemente se pronunciaram a favor da pluralidade das existências. Respeitável a sua autoridade. São Jerônimo o considera, “depois dos apóstolos, o grande mestre da Igreja, verdade – diz ele – que só a ignorância poderia negar”. S. Jerônimo vota tal admiração a Orígenes que assumiria, escreve, todas as calúnias de que ele foi alvo, uma vez que, por esse preço, ele, Jerônimo, pudesse ter a sua profunda ciência das Escrituras.
Em seu livro célebre, “Dos Princípios”, Orígenes desenvolve os mais vigorosos argumentos que mostram, na preexistência e sobrevivência das almas noutros corpos, em uma palavra, na sucessão das vidas, o corretivo necessário à aparente desigualdade das condições humanas, uma compensação ao mal físico, como ao sofrimento moral que parece reinarem no mundo, se não se admite mais que uma única existência terrestre para cada alma. Orígenes erra, todavia, num ponto. É quando supõe que a união do espírito ao corpo é sempre uma punição. Ele perde de vista a necessidade da educação das almas e a laboriosa realização do progresso.
Errônea opinião se introduziu em muitos centros, a respeito das doutrinas de Orígenes, em geral, e da pluralidade das existências em particular, que pretendem ter sido condenadas, primeiro pelo concílio de Calcedônia e mais tarde pelo quinto concílio de Constantinopla. Ora, se remontamos às fontes,[v] reconhecemos que esses concílios repeliram, não a crença na pluralidade das existências, mas simplesmente a preexistência da alma, tal como a ensinava Orígenes, sob esta feição particular: que os homens eram anjos decaídos e que o ponto de partida tinha sido para todos a natureza angélica.
Na realidade, a questão da pluralidade das existências da alma jamais foi resolvida pelos concílios. Permaneceu aberta às resoluções da Igreja no futuro e é esse um ponto que se faz preciso estabelecer.
Como a lei dos renascimentos, a pluralidade dos mundos acha-se indicada no Evangelho, em forma de parábola:
“Há muitas moradas na casa de meu Pai. Eu vou a preparar-vos o lugar e, depois que tiver ido e vos tiver preparado o lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver, vós estejais também.” (João, XIV, 2 e 3)
A casa do Pai é o infinito céu; as moradas prometidas são os mundos que percorrem o espaço, esferas de luz ao pé das quais a nossa pobre Terra não é mais que mesquinho e obscuro planeta. É para esses mundos que Jesus guiará as almas que se ligarem a ele e à sua doutrina, mundos que lhe são familiares e onde nos saberá preparar um lugar, conforme os nossos méritos.
Orígenes comenta essas palavras em termos positivos:
“O Senhor faz alusão às diferentes estações que devem as almas ocupar, depois que se houverem despojado dos seus corpos atuais e se tiverem revestido de outros novos.”

Leon Denis

Cristianismo e Espiritismo





[i]    Ver nota complementar nº 5.
[ii]   Ver Bellemare, "Espírita e Cristão", págs. 351 e seguintes.
[iii]   Ver nota complementar n° 5.
[iv]   Essa parábola adquire maior relevo pelo fato de ser a água, para os judeus cabalista, a representação da matéria, o elemento primitivo, o que chamaríamos hoje o éter cósmico.
[v]    Ver Pezzani, "A pluralidade das existências", páginas 187 e 190.
 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Necessidade da idéia de Deus

 

V
Necessidade da idéia de Deus

Nos capítulos precedentes demonstramos a necessidade da idéia de Deus. Ela se afirma e se impõe, fora e acima de todos os sistemas, de todas as filosofias, de todas as crenças. É também livre de todo o liame com qualquer religião, a cujo estudo nos entreguemos, na independência absoluta de nosso pensamento e de nossa consciência.
Deus é maior que todas as teorias e todos os sistemas. Eis a razão por que não pode Ele ser atingido, nem minorado pelos erros e faltas que os homens têm cometido em seu nome.
Deus é soberano a tudo.
O Ser divino escapa a toda a denominação e a qualquer medida, e se lhe chamamos Deus é por falta de um nome maior, assim o disse Victor Hugo.
A questão de Deus é o mais grave de todos os problemas suspensos sobre nossas cabeças e cuja solução se liga, de maneira estrita, imperiosa, ao problema do ser humano e de seu destino, ao problema da vida individual e da vida social.
O conhecimento da verdade sobre Deus, sobre o mundo e a vida é o que há de mais essencial, de mais necessário, porque é Ele que nos sustenta, nos inspira e nos dirige, mesmo à nossa revelia. E essa verdade não é inacessível, como veremos; é simples e clara; está ao alcance de todos. Basta procurá-la, sem preconceitos, sem reservas, ao lado da consciência e da razão.
Não lembraremos aqui as teorias e os sistemas inúmeros que as religiões e as escolas filosóficas arquitetaram através dos séculos. Pouco nos importam hoje as controvérsias, as cóleras, as agitações vãs do passado.
Para elucidar tal assunto, temos agora recursos mais elevados que os do pensamento humano; temos o ensino daqueles que deixaram a Terra, a apreciação das Almas que, tendo franqueado o túmulo, nos fazem ouvir, do fundo do mundo invisível, seus conselhos, seus apelos, suas exortações.
Verdade é que nem todos os Espíritos são igualmente aptos a tratar dessas questões. Acontece com os Espíritos de Além-Túmulo o mesmo que com os homens. Nem todos estão igualmente desenvolvidos; não chegaram todos ao mesmo grau de evolução. Daí as contradições, as diferenças de vistas. Acima, porém, da multidão das Almas obscuras, ignorantes, atrasadas, há Espíritos eminentes, descidos das altas esferas para esclarecer e guiar a Humanidade.
Ora, que dizem esses Espíritos sobre a questão de Deus?
A existência da Potência Suprema é afirmada por todos os Espíritos elevados. Aqueles, dentre nós, que têm estudado o Espiritismo filosófico sabem que todos os grandes Espíritos, todos aqueles cujos ensinamentos têm reconfortado as nossas almas, mitigado nossas misérias, sustentado nossos desfalecimentos, são unânimes em afirmar, em repetir, em reconhecer a alta Inteligência que governa os seres e os mundos. Eles dizem que essa Inteligência se revela mais brilhante e mais sublime à medida que se escalam os degraus da vida espiritual.
O mesmo se dá com os escritores e filósofos espíritas, desde Allan Kardec até nossos dias. Todos afirmam a existência de uma causa eterna no Universo.
“Não há efeito sem causa – disse Allan Kardec – e todo efeito inteligente tem forçosamente uma causa Inteligente.” Eis o princípio sobre o qual repousa o Espiritismo. Esse princípio, quando o aplicamos às manifestações de Além-Túmulo, demonstra a existência dos Espíritos. Aplicado ao estudo do mundo e das leis universais, demonstra a existência de uma causa inteligente no Universo. Eis por que a existência de Deus constitui um dos pontos essenciais do ensino espírita. Acrescento que é inseparável do resto desse ensino, porque, neste último, tudo se liga, tudo se coordena e se encadeia. Que não nos falem de dogmas! O Espiritismo não os comporta. Ele nada impõe; ensina. Todo ensino tem seus princípios. A idéia de Deus é um dos princípios fundamentais do Espiritismo.
Dizem-nos freqüentemente: – “Para que nos ocuparmos dessa questão de Deus? A existência de Deus não pode ser provada!” Ou ainda: – “A existência de Deus ou sua não existência é sem predomínio sobre a vida das massas e da Humanidade. Ocupemo-nos de alguma coisa mais prática; não percamos nosso tempo em dissertações vãs, em discussões metafísicas.” Pois bem! Em que pese àqueles que mantêm essa linguagem, repetirei que é questão vital por excelência; responderei que o homem não se pode desinteressar dela, porque o homem é um ser. O homem vive e importa-lhe saber qual é a fonte, qual é a causa, qual é a lei da vida. A opinião que tem sobre a causa, sobre a lei do Universo, quer queira ou não, quer saiba ou não, se reflete em seus atos, em toda a sua vida pública ou particular.
Qualquer que seja a ignorância do homem no que respeita às leis superiores, na realidade – e segundo a idéia que forma dessas leis, por mais vaga e confusa que possa ser tal concepção – é de conformidade com essa idéia que a criatura age. Desta opinião – sobre Deus, sobre o mundo e sobre a vida (notais que esses três assuntos são inseparáveis) –, as sociedades humanas vivem ou morrem! É ela que divide a Humanidade em dois campos.
Por toda parte vêem-se famílias em desacordo, em desunião intelectual, porque há muitos sistemas acerca de Deus: o padre inculca um à mulher; o professor ensina outro ao homem, quando não lhe sugere a idéia do Nada.
Essas polêmicas e essas contradições explicam-se, entretanto. Têm sua razão de ser. Devemo-nos lembrar que nem todas as inteligências chegaram ao mesmo ponto de evolução; que nem todos podem ver e compreender de igual modo e no mesmo sentido. Daí, tantas opiniões e crenças diversas.
A possibilidade que temos de compreender, de julgar e de discernir só se desenvolve lentamente, de séculos em séculos, de existências em existências. Nosso conhecimento e nossa compreensão das coisas se completam e se tornam claros à medida que nos elevamos na escala imensa dos renascimentos. Todos sabem que alguém, colocado ao pé da montanha, não pode descortinar o mesmo panorama aberto ao que já chegou ao vértice; mas, prosseguindo sua ascensão, um chegará a ver as mesmas coisas que o outro. O mesmo acontece com o Espírito em sua ascensão gradual. O Universo não se revela senão pouco a pouco, à medida que a capacidade de lhe compreender as leis se desenvolve e engrandece no indivíduo.
Daí vem o sistema, as escolas filosóficas e religiosas, que correspondem aos diversos graus de adiantamento dos Espíritos que nuns e noutros se fiam e, muitas vezes, aí se insulam.



Léon Denis

O Grande Enigma